20 março 2012

Entrevista Jaqueline


MARCIO SCAVONE
Fonte: Marie Claire - parte 1 / parte 2

05/01/12


A pernambucana Jaqueline soma 26 títulos coletivos, oito individuais e vitórias pessoais que vão além de troféus e medalhas. Já superou uma trombose no braço direito, duas cirurgias no joelho, um aborto e uma fratura na cervical que quase a deixou paraplégica. E isso é só o começo




Por Marina Caruso . Fotos Marcio Scavone. Realização Mônica Serino


Não é preciso entender de vôlei para reconhecer que a trajetória da ponteira da seleção brasileira, Jaqueline Carvalho, 28 anos, é admirável. Criada numa família de classe média baixa no bairro de Boa Vista, em Recife, ela aprendeu a jogar bola porque o esporte, ao contrário das bonecas Barbie, era uma brincadeira barata, ­ideal para dividir com a irmã Juliana, um ano mais velha. Capricorniana arretada, gostou tanto do esporte que em pouco tempo se tornou a melhor do colégio no basquete e no vôlei. Aos 11 anos, levou um pito da mãe, que não aguentava mais vê-la matar aulas nas quadras, e optou pela segunda modalidade.
Em três anos, Jaqueline foi convocada para a seleção infantil de voleibol e contratada pelo BCN/Osasco (seu atual time, que agora chama Sollys/Nestlé) e começou a namorar o jogador Murilo Endres, estrela da seleção masculina de vôlei, eleito recentemente o melhor do mundo. “Éramos meninos quando tudo começou”, diz. “Fui a primeira mulher dele e ele, meu primeiro homem.” Casados há três anos, os dois moram em um confortável apartamento na Vila Leo­poldina, em São Paulo, onde Jaqueline recebeu Marie Claire para falar dos momentos mais delicados, doloridos e inspiradores de sua trajetória no esporte.

"Os médicos disseram que eu teria de amputar o braço e parar de jogar"

MARIE CLAIRE O que foi fundamental para transformá-la em uma das melhores jogadoras de vôlei do mundo?
Jaqueline Carvalho Minha mãe (Josiane Costa, 52 anos). Ela se separou do meu pai quando eu tinha 5 anos. Criou a mim e a minha irmã sozinha. Era dona de casa e se virou para arrumar trabalho. Começou como secretária numa loja de autopeças, depois em um escritório. Arrumava bicos onde dava. Quando ela saía para trabalhar, eu fazia o almoço e minha irmã arrumava a casa, ou vice-versa. Tirávamos no par ou ímpar. Meu pai não ajudava em nada. Agora, mesmo tendo sua­do para criar a gente, minha mãe quis mais uma filha. Há dois anos, adotou a Maria Letícia, minha irmãzinha mais nova.

MC Como era a relação com seu pai?
JC Distante. Nós nos víamos uma vez a cada dois meses. Ele tinha problemas no coração e morreu em 2009, às vésperas de um jogo que eu ia disputar na Suíça. Como tive um problema no joelho, José Roberto (Guimarães, atual técnico da seleção feminina), que já era meu treinador, me liberou para ir para casa. Só por isso consegui me despedir do meu pai. Não o via havia meses.

MC Que lembranças gostosas você guarda da infância?
JC Eu adorava jogar Atari. Minha mãe era viciada e eu e minha irmã também ficamos. O Murilo se deu bem, porque ele adora videogame e eu já vim treinada (risos). Quando era criança, não tinha bonecas. A gente jogava bola e videogame, que dava para a família toda participar.

MC Por que escolheu o vôlei?
JC Jogava vôlei no colégio e basquete no Sport Club de Recife. Mas, aos 11 anos, minha mãe disse: “Ou um, ou outro”. Eu não era boa aluna e não estava dando conta. Matava aula para fugir para a quadra e terminei o colégio aos trancos. Como eu amava a Ana Mozer (jogadora de vôlei) — minha musa, superfeminina —, preteri o basquete.

MC Como a carreira deslanchou?
JC Aos 14 anos, quando jogava no Sport Club de Recife, fui chamada para disputar o Campeonato Brasileiro pela seleção pernambucana. Logo depois, me convidaram para a seleção brasileira infantil. Eu achava que não teria chances. Para mim, as meninas do Rio e de São Paulo eram muito melhores. Mas fui a única da seleção pernambucana convocada para a brasileira. Quando meu técnico avisou, chorei de alegria. Na sequência, veio o convite para jogar em Osasco, o que significava morar em São Paulo...

MC Como foi a mudança?
JC Vim sozinha, de avião, porque minha mãe tinha de trabalhar. Tinha 14 anos e cheguei com vestidinho curto, achando que em São Paulo fizesse o sol de Recife. O frio era tanto que o técnico me emprestou um agasalho que ele tinha no carro. Morei numa república com quatro jogadoras e usava o edredon delas, porque só tinha lençol. Foi difícil. De manhã ia para o colégio e à tarde treinava pelo Osasco. Não tinha folga. Se eu ganhasse R$ 400, mandava R$ 200 para casa. Essa era a minha grande alegria. Até hoje é. Adoro dar para a minha mãe o que ela não pôde me dar.

MC Em 2001, aos 17 anos, você foi convocada para a seleção juvenil e eleita a melhor jogadora do Campeo­nato Mundial. Na sequência, virou titular da seleção adulta. Mas...
JC …em 2002, rompi uma veia da mão direita, o que provocou uma trombose. Os médicos chegaram a dizer que eu teria de amputar o braço e ficar sem jogar o resto da vida. Foi horrível. Eu estava no Rio com a seleção e vim para São Paulo encontrar minha mãe, achando que ia amputar o braço com 17 anos de idade! Fiquei três meses sem jogar, fazendo tratamento intensivo para desbloquear a veia.

MC Você mal tinha se recuperado e teve um problema no joelho...
JC É. Fiquei três meses parada e, quando voltei a jogar, rompi o ligamento do joelho esquerdo. Fiz seis meses de tratamento e, logo no meu primeiro treino, machuquei de novo o mesmo joelho. Era o auge da minha carreira, mas tive de ficar dois anos parada. Foi duro demais. De 2002 a 2004, meu crescimento profissional foi muito rápido. De repente, senti como se tirassem tudo de mim: Olimpíadas, Jogos Panamericanos. Se minha mãe, minha irmã e o Murilo — que já era meu namorado na época — não estivessem ao meu lado, não teria suportado...

MC Mas superou e, em 2005, voltou à seleção como titular. No ano seguinte, o Brasil levou a medalha de prata no Mundial e você foi eleita a melhor passadora do mundo. O que sente ouvindo isso?
JC São lembranças doloridas, mas, ao mesmo tempo, muito boas. Consegui dar a volta por cima. Aprendi a crescer com esses problemas. Parei dois anos e voltei ganhando esses títulos todos (com os olhos marejados)... É emocionante. Eu não sabia passar, não sabia defender, só sabia atacar. Tive de aprender a passar porque, com o joelho recém-operado, não podia saltar muito alto. Se hoje sou uma das jogadoras mais completas do Brasil é porque eu soube tirar proveito das limitações que a vida me impôs.

MC Em 2007, às vésperas dos Jogos Panamericanos, você foi pega no antidoping como usuária de sibutramina (um inibidor de apetite). O que tem a dizer sobre isso?
JC Eu nem sabia o que era sibutramina. Mal entrei na Vila do Pan, no Rio, fui submetida ao exame e obrigada a explicar um resultado que não tinha ideia de onde vinha. Fiquei desesperada, me puseram numa coletiva de imprensa e eu não sabia o que dizer. Desconhecia a sibutramina, de verdade. Meses depois, descobriu-se que o problema estava num lote do CLA, suplemento (legal entre atletas) para fortalecer a musculatura. O laboratório (IntegralMed) que fazia o CLA era novo no mercado e colocou sibutramina nos primeiros lotes para fazer sucesso entre as mulheres. Consegui provar minha inocência e, em vez de ficar parada por dois anos, como prevê o Comitê Olímpico Brasileiro, fiquei só três meses — tempo de mandar analisar a amostra e voltar para jogar a Copa do Mundo, onde fui eleita a melhor jogadora.

MC Você é religiosa e fala muito em Deus. Já se perguntou por que Ele a fez passar por tantas “provações”?
JC Para me ensinar alguma coisa! E quer saber? Se precisar passar por tudo isso de novo, eu passo e dou a volta por cima. Aceito o que Ele me manda (chora). Talvez minha missão seja mostrar para as pessoas que, se eu dei a volta por cima, elas também vão conseguir dar. Enquanto puder e tiver saúde, vou continuar batalhando. Não desisto fácil. Sou uma guerreira. Hoje, me olho no espelho e falo: “Caraca, tu é foda”.

MC Este ano trouxe momentos ainda mais delicados. Em maio, você perdeu o bebê que esperava havia seis semanas. Em outubro, chocou-se com uma colega, fraturou a coluna e quase ficou paraplégica. Como lidou com isso tudo?
JC Outro dia, um senhor, na rua, me disse: “Menina, que azar você tem, hein?”. Como assim, azar? Eu tenho é sorte. Virei atleta em um lugar como Recife, que não incentiva o esporte e que, ainda assim, é cheio de gente boa que não teve as chances que eu tive. Depois dessa trombada na quadra, tenho mais certeza ainda da minha sorte. Eu poderia não estar aqui falando com você, sabia? Ou poderia dar esta entrevista estirada numa cama, sentada numa cadeira de rodas. Agora me diz: isso é ou não é sorte?

MC O que sentiu na hora?
JC Fui na bola e a Fabizinha (Fabiana de Oliveira, eleita melhor líbero do mundo) também. Bati com a nuca na cabeça dela. Caí no chão e senti meu corpo revirando, como se fosse uma convulsão, um espasmo. Depois, veio um formigamento e não senti mais meu corpo. Achei que tinha ficado paraplégica. Foi desesperador. Passa tudo pela cabeça, tudo. A sorte é que não quebrei o osso da coluna por inteiro, tive só uma fratura, tipo lasquinha, nas vértebras C5 e C6. Usei colar cervical por três semanas, mas graças a Deus estou bem e não prejudiquei a equipe, que levou a medalha de ouro nos Jogos Panamericanos.

MC Meses antes da trombada, você anunciou uma gravidez que acabou interrompida. O que aconteceu?
JC Descobri que estava grávida quando já tinha sido convocada para ir com a seleção para o Pan. Minha menstruação não vinha e, sabendo que tinha esquecido de levar a cartela da pílula numa das viagens, fiz o teste. Deu positivo e, se eu pudesse, teria esperado os três meses para anunciar a gravidez. Sei que esse é o período do risco. Mas tinha de falar para o Zé Roberto. Não podia prejudicar a seleção nem os patrocinadores, seria sacanagem. Falei com a equipe, com a imprensa e, duas semanas depois, fui fazer um ultrassom e não ouvi os batimentos do coração do bebê. Era o chamado ovo cego, uma placenta sem embrião. Tive de fazer curetagem e ficar uns dias de repouso. O Murilo deixou de viajar com a seleção para ficar comigo. O Bernardinho foi muito compreensivo.

MC O que pretende fazer quando se aposentar? Pensa nisso?
JC Quero ser mãe e trabalhar com moda ou com beleza. Adoro desenhar, pensar em roupas, em looks.

MC Você não acha que o esporte masculiniza a mulher?
JC É difícil ficar bonita de uniforme, né? Por isso sempre gostei de me cuidar, me arrumar. Passo cremes antirrugas, hidratantes, clareadores. Não fico sem fazer pé, mão, cabelo barba e bigode (risos). Na hora do jogo, também não deixo de me maquiar, de colocar algum acessório diferente. Quando entrei para a seleção, quase ninguém se maquiava. Hoje, todas vivem arrumadas.

MC Como é sua rotina?
JC Acordo às 8 horas, tomo café e vou treinar no Sollys/Nestlé, em Osasco, das 9 ao meio-dia. Depois, volto para casa, almoço e faço o que tenho de fazer — tipo banco, mão ou cochilinho (risos). Às 17 horas, volto para o treino de novo e fico até umas 19h30. Daí chego em casa, me alimento e durmo. Chego tão cansada que durmo a noite inteira.

MC Como conheceu o Murilo?
JC Eu tinha acabado de chegar de Recife e ele, de Passo Fundo (RS). Vivíamos em repúblicas de atletas e ele foi assistir a um jogo meu com uns amigos. Quando perguntaram quem ele achava a mais bonita da quadra, ele apontou para mim. Mas é tão tímido que demorou meses pra me ligar. Combinamos de sair e demos nosso primeiro beijo na república em que ele morava.

MC Perdeu a virgindade com ele?
JC Ele foi meu primeiro homem e fui a primeira mulher dele. Descobrimos tudo juntos. Respeitamos muito um ao outro. Na nossa profissão, tem muito assédio. Se fosse sentir ciúmes das meninas que chegam beijando e abraçando, não daria certo. Viajamos muito. Temos de confiar um no outro para fazer da saudade um tempero legal.

MC E se, numa dessas viagens, ele escorregar e ficar com outra?
JC Se isso acontecer é porque ele não me ama mais. Posso até virar amiga, mas termino o casamento na hora. Tenho nojo só de pensar...

MC Na quadra, mulheres são diferentes de homens? As seleções femininas parecem mais instáveis...
JC Mulheres ficam mais instáveis diante de uma derrota, se questionam mais, o que pode comprometer o próximo jogo. A TPM é uma revisão mensal dos valores, não é? E ainda provoca mal-estar físico.Tem jogadoras que chegam a desmaiar de cólica. Os homens, não. Para eles, tudo é menos complexo. Já mulher sente, desestabiliza. Por isso, em período de campeonato, a gente junta a cartela de pílulas, para não menstruar. Daí, quando menstrua, quase fica maluca, né? É muito hormônio. Uma não olha para a cara da outra, engole seco, faz que perdoa, mas não perdoa (risos).

MC Em 2007, vocês viraram a “seleção do amarelou”. Individualmente, eram as melhores do mundo, mas em equipe, não. Como vê isso?
JC Ninguém sabe o que a gente passou naquele ano, o que a gente treinou. Não foi falta de sinergia. A gente jogava bem em grupo, sim, mas havia seleções melhores, que mereciam ganhar o Mundial. Por isso, quando conquistamos as Olimpíadas de Pequim, a Mari (Steinbrecher, jogadora mais polêmica do grupo) fez aquele gesto de silêncio, colocando o dedo na boca, para as pessoas pararem de nos julgar. Não foi por um ou dois campeonatos que viramos “amarelonas”. Aquilo foi um gesto de desabafo.

MC Desabafo ou “cala a boca”?
JC Desabafo. Era muita pressão.

MC Existe algo que você sente que precisa fazer antes de morrer?
JC Viver. Depois desse baque, algo em mim mudou demais. Mais do que nunca, quero viver da melhor maneira possível. Não quero só treinar, treinar, treinar. Amo o vôlei, mas não quero ficar neurótica. Quero viver, curtir os amigos, a família. Não fazia isso porque o vôlei estava sempre em primeiro lugar. Hoje, estou eu. Sei que posso morrer amanhã, por isso quero fazer o que me dá mais prazer.

MC Qual é seu maior defeito?
JC No trabalho, muita gente me achava antipática, arrogante, mas com o convívio percebeu que era só impressão. Ganhei cedo o rótulo de musa da seleção, o que não foi legal para o meu entrosamento. Isso gerava inveja, me distanciava da equipe. Entre 2004 e 2006, chorei muito, me sentia isolada. Não era convidada para nada. Mas isso mudou. Hoje, tenho uma ótima relação com todas. Sou superbrincalhona, afetuosa, vivo falando merda, expressando meu afeto. Eu que ensinei o Murilo a falar “eu te amo”, sabia? Ele não dizia isso nem para a mãe dele, acredita?

MC Perguntei sobre o seu defeito, não sobre o dele...
JC É verdade. O meu grande defeito é falar tudo que penso. Sou bem pé no peito e já magoei muita gente com essa sinceridade. Na quadra, tendo a bater de frente, mas estou trabalhando. Se percebi que exagerei, vou lá e peço desculpas.

MC O que achou da queda do ministro dos Esportes, Orlando Silva?
JC Fiquei triste, não imaginava mesmo. O esporte é tão carente de incentivos no Brasil, e as crianças que estão começando agora a jogar são o futuro disso, podem ser a grande mudança. Saber que ele estava desviando verbas foi um baque, muito frustrante. Mas, infelizmente, esse é o Brasil. Por isso eu jamais seria política. Preferiria ser a mulher mais pobre do mundo do que ter de me envolver com a política.

Fonte Marie Claire - entrevista do mês - parte 1 / parte 2